Domingo, 10 de Dezembro de 2006

"Tears"

Observo as lágrimas que correm no rosto de alguém. Um rosto enrugado pela vida onde se observam traços de histórias sentidas que ninguém quer ouvir. Ignora a vida, que passa mesmo ao lado. Perde-se no meio da multidão. Limitam-se a correr sem rumo, na escuridão. Vejo com clareza a magoa naquele rosto, o pesar que a vida lhe trouxe, através do reflexo de uma vitrina de uma loja qualquer naquela rua perdida no meio de tantas outras que se cruzam, atafulhadas nesta época de gente que corre cheia de pressa, sem reparar que a tristeza mora ali bem perto. Aquele corpo permanece imóvel, sereno, discreto passando despercebido aos olhos dos demais. E olha, para mim, como quem suplica, como quem pensa que a vida é só uma passagem feliz para os outros. Entre vestes de ocasião, de pedaços de tecido imundos e esfrangalhados, de um pedaço de cartão que lhe serve de resguardo, refugia-se alguém que já sentiu a vida, sorriu, planificou um fado risonho, teve familiares. Simplesmente está sozinho. Sozinho abrigado num espaço vazio situado entre a vida e a morte que parece incomodo, mas intacto, invisível e sem memoria, aos de quem passa, de quem corre para um lar, para uma família. No meio da injustiça que com ele permanece ressaltam estes olhos tristes, negros e lacrimantes, ressalva-se uma alma nobre, que em tempos atribuiu amor a quem hoje, o abandonou. Continua apenas fiel a si próprio, através do tempo.

Fui-me embora. Ele ficou.

 

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Escrito por FlordeLis às 00:00
| Vossas memórias
13 comentários:
De Secreta a 11 de Dezembro de 2006 às 09:56
Um texto comovedor. Real , real demais ...
Beijito.


De Guilherme F a 11 de Dezembro de 2006 às 15:14
Mais uma palavras e era uma lágrima. Ficou, presa num castanho de Outono.Ficou.
Gostei muito.
Bjs
Gui


De apenasMadalena a 11 de Dezembro de 2006 às 15:34
Palavras dedicadas a um tema triste, mas infelizmente presente no nosso dia a dia cada vez mais...
Quando lemos ou vemos situações destas pensamos que somos muito ingratos por vezes ao pensarmos que nos falta isto ou aquilo...
Que ao menos o Natal sirva para lembrar um pouco mais estas situações delicadas e deixe de ser apenas uma época de consumismo.
Tocaram-me as tuas palavras...
Cada vez mais sinto a pessoa sensível q és :)
Bjokas gandes
Madalena


De Manuel a 11 de Dezembro de 2006 às 19:50
Um tema demasiado pertinente para ser comentado.
Fica bem.
Manuel


De mmarques a 11 de Dezembro de 2006 às 22:08
Ele ficou! e continuará com o seu sofrimento, alheio aos que passam, porque a sociedade não sabe que ele existe.
A solidariedade é palavra oca para o tempo presente; cada um tem pressa de chegar, não se sabe aonde, não pode pensar no outro porque lhe atrasa o passo!
Escreveste bem! Gostei.
Continuo esperando pelo teu email com as novidades prometidas.
E quero dizer-te que gosto de ser português; só lamento que não se faça política de proximidade, exactamente para diminuir os casos como aquele sobre o qual escreveste.


De Sergio Alex a 12 de Dezembro de 2006 às 01:55
Infelizmente há demasiadas pessoas que ficam, porque não têm onde ficar...


De devaneiosmeus a 12 de Dezembro de 2006 às 10:04
Este texto este tema é demasiado real , retrato de muitas vidas que cada vez fazem mais parte do nosso quatidiano...
É mesmo assim cada um segue a sua vida e outros ficam parados calados sem terem para onde ir.
Bjinhos
ana


De poeta_vagabundo a 12 de Dezembro de 2006 às 13:03
um beijo deste vagabundo que felismente só e de sonhos...


De Vera a 12 de Dezembro de 2006 às 16:54
Lindo texto... triste, mas lindo e real.
Comove mesmo!
Beijinhos!


De Pequenita - Quando o Teu Corpo e o Meu.. a 12 de Dezembro de 2006 às 18:27
Beijo partido de vidro
incandescente.
De cores escorridas
e pincéis sujos.
Beijo de papel branco
No canto jogado.
Beijo cheio de ausências,
de cortes e dores,
De braços cansados.
Beijo de caminho sem volta,
de quarto vazio.
Beijo sem boca,
Sem corpo, sem custo.
Beijo no claro e vazio da minha alma
Que se solta...
Calma.


Beijocaaaa by pequenita...."Qunado o Teu Corpo e o Meu"


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