Sábado, 2 de Julho de 2011

Fantasias II

 

 

Reconheci-o de imediato.

Um rosto marcado pela vida madrasta e pelo seu próprio trabalho. Pela dureza que a vida lhe impôs, pelo divórcio, pelos filhos.

Já nos tínhamos cruzado e trocado algumas palavras no meu local de trabalho. Sorrimos ambos, em sinal de reconhecimento, naquela estação de comboios onde menos estaria à espera de encontrar tal personagem.

- Venha comigo, disse-me.

Disse-lhe que não podia pois o meu bilhete não era para aquele comboio, mas afirmou que não tinha qualquer problema. Assenti com a cabeça visto que assim pouparia cerca de quarenta minutos de espera e segui-o até à carruagem do bar. Sentamo-nos suficientemente perto, podia agora apreciar-lhe o rosto que sempre me tinha atraído naquele homem sempre tão misterioso, e que sempre me tinha suscitado curiosidade em conhecer melhor, e agora ele estava mesmo ali tão perto de mim, do meu olfacto que lhe sentia o odor, do meu corpo que quase sentia o dele.

Fomos metendo conversa, onde vi satisfeita alguma da minha curiosidade em relação à sua rotina, à sua profissão, aos seus interesses. Enquanto discutíamos alguns pontos de interesse a ambos, abstraia-me do que dizíamos e imaginava aquele mesmo rosto a olhar para mim secretamente, a apreciar-me subtilmente os contornos do corpo. Tocava-me agora em jeito de sedução, de cumplicidade, de desejo contorcido na vontade de me acariciar, enquanto me puxava em sua direcção a fim de sentirmos o beijo que partilhávamos de uma forma intensa, apaixonada, sequiosa. Acordei da fantasia que parecia tão real, tão partilhada pelos dois quando chegamos ao nosso local de destino.

Sorriu, perguntou se tinha meio transporte, disse-lhe que sim, disse-me adeus, até qualquer dia.

Restou-me um travo a amargo por não termos trocado números de contacto.

Será que voltarei a ve-lo?...

 

 

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Escrito por FlordeLis às 00:40
| Vossas memórias | Devaneios (1)
Segunda-feira, 9 de Maio de 2011

Conto XXXIII Parte

O vinho não era de todo um dos meus favoritos, e ao contrário do que é costume falando da reacção que o vinho costuma provocar, parecia estar a fazer mais efeito em ti do que em mim, pois sentia-te mais solto. Estava a ser engraçado ver um Pedro diferente, mais animado, mais alegre, mais vivo.

Pela primeira vez estávamos em sintonia, e a vontade de darmos asas ao desejo, revelava-se a cada toque, a cada gesto nosso. Sentia-te entregue de alma e coração, coisa que nunca tinha sentido até hoje, e isso fez-me sentir vencedora, apesar de à umas horas atrás ter pensado em desistir de uma relação que parecia condenada a não dar certo.

Já meio vestidos, meio despidos saboreava o teu gosto, olhava para ti e sentia-te entregue à medida que os teus gemidos revelavam todo o esplendor daquele momento, toda a tua entrega, toda a tua excitação, fazendo-me pensar naquele momento porque foi que demoraste tanto tempo a perceber que de nada vale a pena negar o que sentimos, quando o sentimos na realidade, e para mais quando todos os teus actos revelavam tudo isso, apenas as tuas memórias teimavam em manterem-se presas a um passado que estava resolvido e que não havia volta a dar. Só estavas a adiar aquilo pelo qual ambos estávamos agora completamente entregues e rendidos de tal forma que era o desejo já á tanto tempo reprimido por ti e que em mim me provocava ainda mais a vontade de te ter. Queria-te mais, muito mais, dentro de mim, para mim, hoje e por muito tempo. A noite foi longa, mais longa do que poderia ter previsto quando tinha chegado a casa, mas nada disso importava naquela altura.

- Será que amanha te vais lembrar do que me disseste esta noite? – pergunteiarrisquei piscando o olho.

- Podes ficar descansada – disseste tu – sei bem o que disse, não estou assim tão embriagado. Queres que te prove?

Um sorriso malandro de orelha a orelha saiu da cara de Pedro, deixando-me sem qualquer sombra de dúvida do que se estava ali a passar.

Daqui a algumas horas, estaria a seu lado no avião. Iria aproveitar ao máximo, independentemente do que o futuro nos poderia a vir a reservar.

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Escrito por FlordeLis às 17:20
| Vossas memórias | Devaneios (2)
Terça-feira, 26 de Abril de 2011

XXXII Parte

 

Não soube o que lhe dizer naquele momento e não me pareceu que ele quisesse que lhe dissesse alguma coisa, porque depois de o ter dito, simplesmente trocamos um beijo apaixonado, dois e muitos mais.

Acabei por não lhe dizer qual era a minha resposta à sua pergunta, mas havia uma concordância implícita que não precisava de ser mencionada.

Nada era preciso ser dito, apenas era bom saber que afinal não estava enganada, que havia um sentimento mútuo, mesmo que já o sentisse, mas que ele parecia negar a si mesmo e que até agora tinha feito questão de esconder apesar do que estava a vista de qualquer um.

Ficamos ali abraçados um ao outro, eu completamente aninhada nos seus braços, a combinarmos pormenores da viagem, afinal ele tinha adiado por mais um dia a sua viagem para que eu pudesse tratar de tudo, mesmo ainda sem saber nessa altura qual seria a minha resposta.

Era impressionante, as vezes com que ele me arrebatava com os seus actos, e pela positiva. Sentia-me amada, acarinhada, algo que já não sentia nem sabia o que era há muito tempo e isso fazia-me sentir segura ao seu lado, apesar das duvidas que me tinha feito sentir até à bem pouco tempo. E mais ainda depois deste convite inesperado, que se não tivesse existido, o meu dia seguinte seria diferente e o dia dele seria de viagem para bem longe dali.

- Já viste as horas? Perguntou-me.

- Já, já tinha visto. Mas o que foi?

- Tenho de ir.

- Ir para onde? Perguntei com um sorriso revelador das minhas intenções.

- Para casa, preparar o resto das coisas para levar.

- Não vás. - Disse-lhe. – Fica aqui esta noite.

- Leonor…

- Não digas nada. Fica simplesmente.

Olhaste para mim como me adivinhando os pensamentos, mas ainda resististe por mais algum tempo.

Mas sabíamos que era desejo de ambos o que estava ali a acontecer, e não havia mais como negarmos a vontade que tínhamos em partilhar o corpo um do outro, o prazer que tínhamos trocado à instantes entre beijos que se degustavam de um copo de vinho que ambos tínhamos partilhado momentos antes, entre conversas e risos, entre olhares e desejos silenciosos que se revelavam a cada toque nosso, mesmo que nao premeditado, mas que nos fazia estremecer a ambos num prazer partilhado.

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Escrito por FlordeLis às 13:52
| Vossas memórias
Quinta-feira, 7 de Abril de 2011

Parte XXXI

Chegaste quase no mesmo segundo em que tinhas tocado à campainha, ou pelo menos foi isso que me apareceu. Ainda vinhas com as calças enroladas até ao joelho, como estavas na praia quando te deixei, vinhas exasperado, parecia quase que não tinhas tempo a perder.

- Convidas-me para entrar ou não!? – Perguntaste ofegante com um sorriso de orelha a orelha, quando eu ainda estava entregue a estes pensamentos.

- Sim, claro, entra!

Fomos até à sala onde te sentaste no sofá mas numa espécie de frenesim que se notava à distância.

- Estas bem? – Acabei por perguntar.

- Óptimo! E tenho uma coisa para te perguntar…

- Pergunta.

Fiquei à espera que recuperasse a respiração, pois parecia que tinha acabado de fazer uma maratona e que tinha acabado de chegar à meta.

- Leonor, queres vir comigo e passares o resto das tuas férias em Inglaterra? – Podes sempre passear mesmo quando eu estiver na empresa e não te vais aborrecer te garanto, vou-te indicar sítios maravilhosos e sei que vais gostar. Que me dizes?! Quando for altura de voltar, vens.

Fiquei sem saber o que lhe dizer. Com esta é que eu não contava, e se por um lado seria bom, estaria com ele, ou pelo menos perto e aproveitaria para conhecer novos lugares, por outro não sabia bem o que pensar da sua atitude, ou o que o fez querer algo deste género e como faze-lo falar sobre sentimentos não era fácil, não sabia como abordar o assunto sem que ele percebesse, mas algum significado eu teria para que me fizesse o convite.

- Eu gostar até gostaria, mas…

- Mas o que?

- Mas… tenho uma pergunta para te fazer.

- Faz.

- O que é que isso quer dizer? Ou melhor, porque eu?

- Já são duas perguntas… - respondeste ironicamente com um sorriso matreiro nos lábios.

- Não brinques. Responde-me.

- Porque gosto da tua companhia. Porque és alegre. Porque me fazes bem. E porque… estou apaixonado. Descobri isso hoje quando te vi partir.

Um arrepio na espinha que me percorreu todo o corpo, um engolir em seco, um nervoso miudinho, as faces que senti corarem, um mau jeito para o olhar nos olhos depois, denunciaram-me por completo, sentia agora as lágrimas a correrem mas de felicidade.

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Escrito por FlordeLis às 15:50
| Vossas memórias | Devaneios (3)
Terça-feira, 8 de Março de 2011

XXVII Parte

De certa forma, fiquei com a sensação que a vontade que tinha de desaparecer era mais forte do que lhe dizer o que me ia na alma, não estava a conseguir disfarçar o meu desconforto, a dor que sentia e até o simples respirar estava-me a sufocar, sentia-me prestes a explodir ou em lágrimas, ou a dizer-lhe tudo o que me estava a passar pela cabeça.

Por outro lado, sabia que aquelas seriam as últimas horas que estaria perto dele, pois partiria no dia seguinte de manha cedo como já me tinha dito entretanto.

Estava demasiado absorvida em todos estes pensamentos e já nem sequer disfarçava, enquanto ele tentava fingir que não percebia o meu estado de espírito, continuando a conversar como se nada se passasse.

- Vamos dar uma volta?

Encolhi os ombros. Abraçaste-me e quase me arrastaste pela praia, já depois de nos termos descalçado.

- Eu vou e volto, não precisas de te preocupar... – disse quebrando o nosso silencio à medida que caminhávamos.

- Mas o meu instinto diz-me que não.

- O teu instinto está enganado desta vez.

- Será?... - Olhei-o fixamente, esperando que reagisse, que me dissesse algo que me deixasse com alguma esperança.

Em vez disso baixou o olhar, como a fugir da minha questão. E isso ainda me agonizou mais a dor que tinha começado a sentir algures quando ainda estávamos na esplanada.

- Porque é que essa tua reacção ainda me deixou com mais certezas do que acabei de dizer?

As minhas palavras saíram frias, calculistas, um nó na garganta atrapalhava-me a fala e percebi nesse momento que estava a tentar afastar-me, criar uma barreira, algo que me defendesse da distancia que nos ia separar, talvez, para sempre.

Estava virada para ti, impedindo o teu avanço no areal, esperava uma reacção, algo que me confortasse, que me afastasse dessas certezas que se clarificavam cada vez mais, com tanto silencio que vinha da tua parte.

- Bem me parecia. - Disse-lhe repentinamente.

E dito isto abandonei a praia.

Não olhei para trás. Em vez disso, apareceram as lágrimas que corriam agora livremente libertando-se da prisão que as tinha mantido até ali.

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Escrito por FlordeLis às 22:15
| Vossas memórias

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