Terça-feira, 1 de Março de 2011

XXVI Parte

Chegaste um pouco fatigante, porque conforme disseste mais tarde, tinhas andado a correr para chegares o mais depressa possível depois do meu telefonema, acabaste por cair na cadeira, respiraste fundo e fizemos o nosso pedido.

Olhava para ti, tentava com alguma subtileza perceber o que te ia no pensamento mas sem grande sucesso. Estavas-me a contar como tinha sido o teu dia, e para variar era eu que permanecia calada, quase imóvel, esperando pacientemente que te decidisses a contar-me o que era assim tão importante. Apetecia-me gritar e dizer, pára, fala o que tens para me dizer mas em vez disso, acenava com a cabeça em sinal que te estava a ouvir atentamente, emitindo uma ou outra palavra em sinal da minha atenção.

- Estas bem?

- Estou. Apreensiva talvez. Mas bem.

Fez-se um silêncio.

Sabias perfeitamente ao que me referia, apenas estavas a adiar a conversa que querias ter comigo e percebeste que isso me estava a incomodar, mas também tu estavas demasiado nervoso e triste. Pois não era muito teu falar daquela maneira como se não houvesse amanha, e sabias que eu já tinha percebido que não estavas em ti.

- Pedi-te para vires cá porque tenho uma coisa para te dizer.

- Eu sei. E aqui estou.

Não sabia como iniciar a conversa, mas teria que o fazer. Apenas tinha medo da sua reacção, e sabia que impulsiva como era, estava receoso de que o deixasse ali, talvez para nunca mais a ver.

- Posso fazer uma pergunta antes de te dizer...?

- Faz.

- Como te sentirias se te dissesse que teria que me ausentar do país?

- Triste.

De repente, senti uma vontade de chorar enorme, e estava a tentar segurar essas mesmas lágrimas, mas sem sucesso. Criou-se um nó na garganta, não consegui proferir mais nenhuma palavra. Algo me dizia que seria uma ausência permanente. Definitiva.

- Por favor.

- Não digas mais nada! Não precisas.

 - Deixa-me explicar-te. Vou ter que ir a Grimsby. Tenho uns assuntos para resolver. Tem a ver com a empresa…

- E quanto tempo vais lá ficar?

- Talvez uma semana. Duas no máximo.

- Estou a ver.

- Não fiques assim, por favor.

- Queres que fique como? Alegre, contente com a tua ausência?

- Não, mas …

- Eu sinto que não é apenas uma semana ou duas. Sinto que …

Puxaste a tua cadeira para ficares de frente para mim e acenaste em jeito de negação. Chegaste-te mais perto e abraçaste-me.

- Não, não estou a fugir de ti, se é a isso que te referes. – disseste-me ao ouvido.

Deixei-te abraçar-me pois a falta que sentia disso era visível. Deixamo-nos estar assim por uns momentos sem proferir palavra. Continuava a ouvir as gargalhadas das crianças na praia, o burburinho normal da época.

- Não, não era isso que ia dizer. Ia dizer que, talvez não seja apenas uma semana ou duas. Sinto que talvez não seja bem assim.

- Porque é que dizes isso?

- Não sei. Mas é o que sinto.

- Mas não é verdade. Ou pelo menos julgo que não vai ser assim, e se conseguir despachar-me mais cedo, estarei de volta. Prometo.

 

Eu não estava convencida. E algo me dizia que eu tinha razão em pensar assim.


Escrito por FlordeLis às 00:12
| Vossas memórias
4 comentários:
De goti a 6 de Março de 2011 às 21:52
Por vezes o medo faz-nos fugir da situação, mas nada resolve.
Está a ficar interessante.
Beijo doce


De FlordeLis a 7 de Março de 2011 às 08:40
Obrigada pelo comentario deixado.
É bom saber que ha quem nos lê, é bom ter feed-back.
É o que por vezes faz falta.

Cmpts,

LR


De Candy a 7 de Março de 2011 às 09:37
como sei o que é sentir esse nó na garganta. e a dor de ouvir essas palavras quem parecem abalar com o nosso [pqueno] mundo. Custa tanto a ausencia. Custa tanto a distancia. Mas se o amor é sincero, unico, especial, verdadeiro. Não há barreiras que o separe nem mares que o afaste.

beijo doce

vou leva-te :)


De FlordeLis a 7 de Março de 2011 às 10:19
Infelizmente raros sao os casos que o verdadeiro amor é gratuito, que amar e ser amado deveria ser natural, sem exigencias ou mudanças.

Obrigada pelo comentario.

LR


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