Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Conto XIX Parte

Suspiraste e olhaste para mim, como quem respira fundo e pensa que já não há hipótese de fugir a uma conversa adiada.

 

- Já se passaram dois anos desde que tudo aconteceu… Quando vivia em Grimsby*, não vivia sozinho. Na altura era casado. Tínhamos casado há cinco anos, eu e Catherine, a minha mulher…

Eu olhava para ele, e mantinha-me em silêncio, à espera do desenrolar da história, paciente, sem saber onde tudo aquilo nos iria levar.

- Ela era descendente de origens portuguesas. Alegre, amiga, sempre bem-disposta. Vivíamos numa casa assim como esta onde vivo agora, à beira-mar e num dos passeios de barco que fazíamos habitualmente fomos surpreendidos pela mudança dos ventos, o mar encrespou de um momento para o outro e quando demos por isso, estávamos no meio de uma tempestade medonha, como aquela naquele dia em que nos conhecemos…

- Sim …

- E, de repente… - apesar da escuridão, consegui perceber que ele estava com os olhos banhados em lágrimas que ameaçavam a qualquer instante explodir – de repente o mar levou-a. E nunca mais a trouxe. Não consegui fazer nada, percebes?! Ainda me atirei ao mar, mas tive que desistir, estava escuro como breu e se não saísse dali, não estaria aqui a contar-te agora esta história! - Olhaste directamente para mim, com um olhar aflito, as lágrimas que outrora prendias, rolavam agora no rosto em liberdade, fiquei gelada, apenas de ouvir e de imaginar o que se teria passado naquela tarde, a aflição, o terror, o sentimento de se perder alguém que se ama. – E desde esse dia, que não me consigo imaginar com outra pessoa…

Ficamos em silencio absoluto, eu porque nao sabia o que dizer depois daquilo tudo. Ele, porque as memórias eram crueis.

- Porque é que vieste para Portugal? Perguntei, quebrando o gelo.

- Para estar mais perto das suas origens, para fugir daquele local, que me traziam tantas lembranças…

- Mas escolheste um sítio semelhante para viver, porque ?faz-te sentir mais perto… dela?

 - Sim… acho que sim…

- Mas o mar não a vai trazer de volta… - arrisquei a dizer.

- Eu sei. Mas é onde me sinto mais próximo da sua alma.

- Quase que arriscaria qual a imagem do quadro que escondes em tua casa…

Olhaste-me surpreendido pelo meu atrevimento. O teu olhar transmitiu-me um sentimento de raiva, enrijecendo-me os sentidos, mas fizeste-os acalmar assim que percebeste o que estavas a transmitir.

 - Pois… é exactamente o que estás a pensar.

 

 


Escrito por FlordeLis às 15:42
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