Quarta-feira, 22 de Novembro de 2006

Laço Cor-de-Rosa Choque

Laço Cor-de-rosa Choque

Desprendo o laço da saudade que preservo, amarfanhada num recolhido ponto de uma gaveta envelhecida, permanecem ali as recordações que abrigo da minha adolescência inquieta e que me faziam sofrer, capaz de converter o mundo apenas com a vontade de avançar e lutar por um ideal, uma crença, uma finalidade.

Protejo as nossas missivas de amor, relíquias envelhecidas pelo tempo, do desgaste de uma inocência perdida, que se reflecte na minha imagem, mas já atenuada, gasta, e já esquecida num espelho velho, abandonado no meu quarto. Cada linha que decifro, traz a juventude enredada em lágrimas de sangue, carregadas pela esperança de um dia ser tua. Para Sempre. Para sempre não! Desculpa. Não foi nem será nada para sempre, apenas a morte separa as almas, que as junta, novamente, sem a nossa autorização, sem pedirmos. Cada vocábulo um sentimento acrescido, um doce lamento, uma esperança, um devaneio! Cada interrogação, uma incógnita, uma incerteza, uma insegurança! Cada ponto final, uma afirmação, uma dúvida posta de lado. Um retrato faz-me refrescar um momento na vida que não mais voltará, atribui uma nostalgia, assim como trás a saudade de voltar a rabiscar as promessas que li nesses amontoados papeis que se desarranjam entre si, apenas não sei porque, sei que não voltarei a redigir assim. Algo se perdeu no meio do nada, de sentenças ditas sem pensar, de sonhos, de frustrações, de bloqueios sentimentais, de paixões perfeitas que nunca deveriam acabar sem serem plenamente vividas. Assim como se perderam ilusões, entre noites mal dormidas, entre sofrimentos desbotados nas linhas mal definidas da existência, perdeu-se a ternura inocente, as aventuras começadas, a esperança de um dia voltar a ser menina. Sim, essa ternura que não voltará jamais.

Tento escrever novamente algo semelhante, mas as madrastas confianças, os pontapés dados um após outro não me deixam prosseguir nesta encruzilhada, não mais consigo atingir o auge da idade em que transbordava alegria por onde passava, que contagiava quem comigo falava, que alagava cada coração que comigo se cruzava.

Apenas a memória ainda não me atraiçoou, essa continua intacta, assim como a minha vida que continua entrelaçada naquele frágil laço cor-de-rosa choque.

 

 

(Desafio de Guilherme, “Coisas da Gaveta”)

 

 

Categorias:

Escrito por FlordeLis às 00:00
| Vossas memórias
11 comentários:
De Guilherme F. a 22 de Novembro de 2006 às 09:31
Chego aqui e, deixo palavras, poucas, por sentir que tudo foi dito. No meio das pedras, dos riscos, da cicatriz profunda que nos cortou a infância, esse lugar descalço onde inventamos sonhos e ferimos a alma, nesse lugar secreto já somos pássaros feridos: pelo riso; pela falta; pela saudade futura do que somos aí.
Deixo Rosas, aqui, pela distância física, que nos aproxima nas palavras.
Deixo beijos, flores silvestres, odores do campo e da infância.
Gui


De Secreta a 22 de Novembro de 2006 às 09:59
Que dizer perante palavras tão bonitas ? Magnifico texto.
Beijito.


De ZePedro a 22 de Novembro de 2006 às 10:38
Recordações quem é que as não tem?
Podem ser guardadas de muitas maneiras, podem ser simbolizadas por um laço cor de rosa neste caso.
Mas podem ser de muitas mais maneiras, umas marcando muito outras nem por isso.
Ficam sempre connosco pois foram elas que nos fizeram tomar atitudes que nos fizeram ficar mais fortes ou que nos fizeram ficar mais fracos tambem, por vezes até fragilizados.
Mas quando temos a capacidade de reviver através de um estimulo como uma carta ou outra memória que através do contacto físico nos faz reviver é sinal que mesmo que muito tenha doído conseguimos seguir em frente e ter novas vivencias.
Beijo de parabens


De nevoeiro_vagabundo a 22 de Novembro de 2006 às 11:15
hummm,palavras lindas...
beijo vagabundo


De devaneiosmeus a 22 de Novembro de 2006 às 13:33
Recordações, lembranças de um tempo que passou e não volta, de sonhos ilusões, que fizeram de nós o que hoje somos, são pedaços de vida.
Recordar é viver...e aprender.
bjinhos
Ana


De apenasMadalena a 22 de Novembro de 2006 às 16:01
Todos temos o nosso baú de recordações, mais ou menos recheado de memórias....
Eu confesso que recentemente resolvi dar uma arrumação no meu e deitei fora td akilo que me trazia dor, más recordações, frustrações...
Agora com o baú arrumado, pareçe que até cheira a novo e está mais bonito :)
E fiz uma promessa a mim própria que vou cumprir custe o que custar: só o voltarei a abrir para lá guardar akilo q realmente mereçe a pena ser guardado.Coisas ou lembranças boas ou mesmo más que me trouxeram ensinamento, que me tornaram mais forte, uma pessoa melhor.
Bjokas gandes
Madalena


De baraujo a 22 de Novembro de 2006 às 16:32
todos nós temos pelo menos um baú de recordações/memórias [recuerdos]... nem que seja a memória... e temos de a preservar, para sabermos sempre quem somos, de onde vimos e para onde vamos... como seria interessante uma 'reunião' de baús por esse mundo fora... mas são pessoais... e por isso... Lindo texto! jinhos


De Fernando a 22 de Novembro de 2006 às 20:43
Não vou comentar este texto. Coisas destas deixam-me triste, por isso não vou comentar...


De Manuel a 23 de Novembro de 2006 às 00:35
Um laço cor-de-rosa, a simbologia de muitas recordações.
Beijos.
Manuel


De mmarques a 23 de Novembro de 2006 às 15:33
gostei.


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